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The Great Buddha+, o umbigo e o capachinho

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The Great Buddha+ deixa transparecer uma introspecção bastante sóbria, característica de quem chafurda nas ínfimas possibilidades do metacinema. O taiwanês Huang Hsin-yao - na primeira incursão pelo campo da longa-metragem de ficção, num alongar da sua curta homónima - avisa o espectador de antemão quanto à possibilidade de se vir a intrometer no curso da narrativa, em jeito de comentário áudio indissociável ao filme. Ocasional interacção entre produto fílmico e espectador, num piscar de olhos e reconhecer da presença - "O filme é a preto-e-branco, ninguém vai reparar na cor da mota", aponta a dada altura uma das personagens. Sendo que o voyeurismo lhe é tema maior, essa sua opção de se embrenhar no metacinema só eleva a postura do próprio espectador a um outro patamar de crítica.
Seres errantes - até mesmo o cenário se encontra em consonância com esse ocupar fluido de tempo e espaço - que procuram uma forma não só de passar o tempo mas também de apontar o dedo à classe soc…

Ecrã de Haneke

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Máxima na ambiguidade, Caché faz aquilo que quer do espectador. O ecrã de televisão sempre à espreita, qual janela aberta a um mundo podre que lhes chega somente por via dos media. A violência é constante adorno à caixa mágica, seja por dentro ou por fora - uma vez visto, impossível afastar da memória o ecrã sujo de sangue em Funny Games. Haneke faz questão em trazer a violência, uma e outra vez no curso da sua carreira, para o colo da classe média-alta. Destrói a bolha de relativa segurança que lhes pontua o privado. No plano aqui em destaque - a passividade de voyeur lida no recorrente olhar fixo da câmara -, Haneke faz questão de equacionar a possibilidade de violência dentro e fora do pequeno ecrã que lhe ocupa o motivo de foco central. Em primeiro plano, o casal protagonista que tenta descobrir o paradeiro do filho. Mais distante e entre ambos, o ecrã - e não serve este como momentâneo e subtil protagonista? - que dispõe a realidade do mundo lá fora. A violência no Médio Oriente …

Dívidas aos ombros

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Na era do olhar como veículo, substituto à ausência de voz audível, contava-se tudo mediante o seu enaltecer. A composição do plano dispõe os credores e a devedora na discrepância do fosso de poder que os demarca entre si. As dívidas nas mãos dos quatro homens em segundo plano. Observam-na de cima, reduzindo-a na importância. O olhar da mulher num crescendo de terror. As mãos em destaque, ainda que não lhes caibam o protagonismo da história. A postura conta a sua condição actual.The Hands of Orlactem aqui um dos seus mais memoráveis quadros.

"Happy End" ou como reciclar toda a obra de Haneke

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Happy End é filme-resumo da carreira de Michael Haneke. Ecoa Der siebente Kontinent na sobriedade do suicídio. Usa ainda do seu filme de estreia o dinheiro como temática corrosiva. Traz muito de Benny's Video para a adolescente que observa o mundo através do olho da câmara, numa ânsia do registo que a ambos tolda a vista e os torna mais frios ao valor de uma vida. Ainda que em Happy End não se passe das palavras ao acto, proporciona-se também aqui tempo de antena aos fetiches pouco convencionais que foram pauta a La Pianiste. A vigilância de Caché, exacerbada no pós-11 de Setembro, novamente a (des)construir a linha entre público e privado. Presente ainda Amour e o corpo envelhecido como carcaça que sufoca e limita.
Happy End volta a embrenhar-se no confronto da classe média, não houvesse uma recorrente tentativa do austríaco em empreender um estudo sociológico no curso da sua filmografia. Torna-se mais evidente na recta final do filme, num contraste entre classes e etnias que …

Utopia imprecisa

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Em plena tentativa de fuga há um belíssimo momento que permite a The Circlerecuperar o fôlego. Duas mulheres junto a uma pintura que ilustra a terra natal daquela que lhe aponta o dedo. O pintor não foi preciso. O destino ali representado como distante da memória que o conservara. Ponto de fuga que tanto promessa comporta. Janela aberta à personagem, à mulher como sexo inconformado.

A arte de comer esparguete

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Quem diria que comer esparguete poderia conter o seu quê de perturbador? Ninguém ousa aliar o terror com o girar do garfo, mas The Killing of a Sacred Deerlá o faz. Tensão quase palpável, pelas garfadas de um Barry Keoghan a ter debaixo de olho. Ao falar em esparguete (raras as ocasiões), não há como não resgatar da memória a mítica refeição - nojenta, diga-se - que eleva Gummo no reconhecimento. O esparguete, o leite, o champô e o chocolate. Mescla impensável que é marca de água (suja) de Harmony Korine. Cena que não mais nos abandona. Ou porque não o prato de esparguete de A Clockwork Orange, célebre momento cujo desfecho tão bem se conhece? É favor acompanhar com vinho.
A comida, qual sub-género de terror, continua a saber demarcar-se. Não esquecer que foi igualmente em 2017 que o espectador se viu presenteado com a belíssima cena da tarte - sim, essa mesmo, na duração de trilogia - que catapulta A Ghost Story. Seja com esparguete ou tartes fúnebres, o incontestável passa pelo lug…

A mulher iraniana, do choro ao silêncio

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Tão simples no seu pressuposto e ainda assim uma das mais belas aberturas da história do cinema? Do negro que faz desfilar os créditos iniciais de The Circle, sonorizados pela associação a um parto, ao primeiro plano que deixa entrever a luz. Cessam os créditos, entra o choro, o branco em jeito de chegada ao mundo. Simples. Eficaz. Mera sequência de planos de contraste, de um antes e depois, capaz de contar o lugar da mulher na sociedade iraniana que tão bem a demarca e menoriza. "É uma rapariga", boa nova recebida com desagrado e medo por uma mulher. Vemo-la de costas, véu negro que a adorna, naquele momento despojada de individualidade e amostra do sexo julgado como menor. Inconformada, a mãe da mais recente mãe volta a questionar o sexo, numa réstia de esperança por um possível engano. "É uma linda rapariga", assim lho asseguram novamente. Desespero crescente, capaz de antever a reacção do pai ao saber o sexo da criança. Naquele instante nasce a mulher como ser…