TCN Blog Awards 2013

É com enorme satisfação que vejo este pequeno espaço nomeado em duas categorias, sendo estas de Novo Blogue e Crítica de Cinema. É uma honra poder estar emparelhado com muitos outros autores de boas críticas desta sétima arte que tanto idolatramos. Muito obrigado pela distinção. Boa sorte a todos. 
Podem consultar as categorias na íntegra aqui. Passo a transcrever a crítica nomeada:

The Last Laugh (1924)

Título Original: Der letzte Mann
Realização: F.W. Murnau
Argumento: Carl Mayer

[Spoilers] Muitos teóricos e historiadores que se debruçam sobre a sétima arte afirmam que algo se perdeu com o advento do primeiro filme sonoro em 1927. A nova possibilidade de transmitir uma ideia através do recurso a diálogos sincronizados com o som traria também uma conotação negativa. Perante tal possibilidade, surgiria o facilitismo das histórias e uma certa preguiça em inovar através da imagem. Uma nova mentalidade surgia, na qual a imagem não era mais o principal meio através do qual se contaria uma história. Confesso que cada vez percebo melhor a ideia dessa tal perda. E pérolas como este The Last Laugh fazem-me ter orgulho no cinema mudo, nestes primórdios da sétima arte tal como a conhecemos hoje. Para uma maior intensificação da experiência, visualizei este filme alemão sem qualquer som. E por esse mesmo motivo, não posso opinar sobre a banda-sonora composta especialmente para acompanhar a projecção da película. Queria absorver a época por completo. Queria que as imagens comunicassem comigo. E o que é certo é que houve essa tal comunicação que me deixou no final sem mais palavras a proferir. 
A superficialidade pinta-se com um determinado estatuto. O estatuto é removido e a persona que o protagonista assume perante a sociedade esfuma-se. Uma a uma as suas camadas mais íntimas ressurgem e tornam-se visíveis a todos. O respeito quebra-se e sobra a hipocrisia da sociedade para contar a história.
O nosso velho protagonista, brilhantemente interpretado por Emil Jannings, é despromovido do seu cargo como porteiro do Atlantic com o propósito de preencher uma incumbência de importância menor na casa-de-banho do edifício. É brilhante a forma como embarcamos nesta pequena viagem da nossa personagem principal.
A comunidade onde se insere deleita-se perante a farda que o reveste. E esse mesmo objecto é talvez o mais importante no que toca a criticar a sociedade que desfila à volta do mesmo. Mulheres ignoram homens que não são mais do que uma mera presença num espaço. O caso muda de figura quando o homem fardado abandona a sua casa pela manhã para se dirigir ao trabalho que lhe atribui tal fama. Os sorrisos das mulheres imediatamente se iluminam numa total devoção à figura que tanto admiram. É interessante como tais sorrisos se desfiguram ao longo do filme ao ponto de se tornarem gargalhadas maliciosas e repletas de escárnio.
Quando o velho é despromovido para o novo cargo, a crítica alarga-se e ilustra o tratamento infligido num idoso por parte da sociedade. Abandonado, reduzido a um cargo que vê como inglório, esquecido no piso inferior com a sua identidade a ganhar pó num armário. A meticulosa montagem exacerba esta ideia de envelhecimento e esquecimento. Através de uma sucessão de planos bem estruturada, consegue denotar-se um contraste entre a velhice e a juventude. Esse contraste é reforçado através dos movimentos exagerados e distintos entre o velho protagonista e o jovem empreendedor. O recurso à montagem paralela funciona da melhor forma, na medida em que situa as duas classes num tempo homogéneo. Sabemos que por cima do sofrimento e solidão da personagem de Emil Jannings, se encontram gargalhadas revestidas de glamour.
A direcção de fotografia de Karl Freund compreende uma iluminação que ilustra os próprios sentimentos da personagem. O seu novo local de trabalho, símbolo da sua infelicidade, desenha-se com sombras que se assemelham a grades de uma prisão. A iluminação consegue sempre dirigir o nosso olhar para o local onde é suposta a nossa atenção residir.
Apesar de inexistente, o som consegue ser audível devido a um trabalho de câmara excepcional. Um homem toca trompete e o som chega-nos ao ouvido. Um plano aproximado do tubo, para em seguida haver um afastamento de forma a revelar um plano mais geral, cortando para um plano do protagonista de ouvido à escuta. Em seguida um plano de conjunto da personagem que toca, delimitando assim a acção a um espaço concreto. Este é apenas um pequeno exemplo de como, neste caso em particular, a história comunica tão bem através da imagem. De referir ainda a mestria da quase total ausência de intertítulos. Os únicos que existem não se revelam para auxiliar os diálogos. Ao contrário de muitos filmes mudos, aqui esse factor não é de especial relevância para a compreensão do desenrolar da acção.
misè-en-scene é um factor importante a destacar. Os vários cenários que preenchem o espaço adquirem características únicas que os distinguem uns dos outros na perfeição. Anoitece e amanhece num piscar de olhos e as personagens preenchem o espaço que lhes é devido, como se de uma peça de teatro se tratasse.
O epílogo mostra-nos como o protagonista usa a sua visão anterior e a humilhação pela qual passou com uma pitada de humildade. Agora todos se prostram a seus pés perante o seu novo estatuto. O ciclo continua mas agora com um protagonista com uma mentalidade mais recheada. Tal como a expressão popular proclama, quem ri por último ri melhor.

Classificação: 10


Comentários

  1. Parabéns pelo reconhecimento. E parabéns pela crítica belíssima.

    Abraço.

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    1. Muito Obrigado Emerson. Já é um prazer encontrar-me nomeado mas torna-se um prazer ainda maior quando se é reconhecido pela nossa divagação perante um filme que me ofereceu uma verdadeira experiência cinematográfica. Nunca me hei-de esquecer do momento em que me deleitei com esta obra-prima.
      Se por bem entenderes e achares que se revela como justo, podes passar pelo Cinema Notebook para deixar o teu voto. Nestas e noutras categorias, tens 14 categorias e bastantes nomeados por onde escolher :)

      Abraço

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  2. Parabéns pela critica Rafael. Em termos de estética expressionista e construção da narrativa é de facto uma obra prima e não há muito mais a dizer. Há no entanto aqui um plano maior que vale a pena reflectir. É que apesar de passarem 90 anos desde esse tempo e desse retrato, parece que estamos exactamente no mesmo ponto... o preconceito e a descriminação, o tratamento dado ao idoso e uma sociedade que só se rege e valoriza em função dos bens materiais, bens materiais que no fundo são o fundamento da existência do próprio velho. o filme deu-me vontade de explorar esta temática.

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    1. Obrigado Carlos! É uma autêntica obra-prima e só tenho pena de não o poder voltar a ver pela primeira vez lol
      Tens toda a razão, mantêm-se as mesmas problemáticas. É uma temática muito interessante e se precisares de ajuda para a abordar já sabes ;)

      Abraço

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