A arte de comer esparguete


Quem diria que comer esparguete poderia conter o seu quê de perturbador? Ninguém ousa aliar o terror com o girar do garfo, mas The Killing of a Sacred Deer lá o faz. Tensão quase palpável, pelas garfadas de um Barry Keoghan a ter debaixo de olho. Ao falar em esparguete (raras as ocasiões), não há como não resgatar da memória a mítica refeição - nojenta, diga-se - que eleva Gummo no reconhecimento. O esparguete, o leite, o champô e o chocolate. Mescla impensável que é marca de água (suja) de Harmony Korine. Cena que não mais nos abandona. Ou porque não o prato de esparguete de A Clockwork Orange, célebre momento cujo desfecho tão bem se conhece? É favor acompanhar com vinho.

A comida, qual sub-género de terror, continua a saber demarcar-se. Não esquecer que foi igualmente em 2017 que o espectador se viu presenteado com a belíssima cena da tarte - sim, essa mesmo, na duração de trilogia - que catapulta A Ghost Story. Seja com esparguete ou tartes fúnebres, o incontestável passa pelo lugar cimeiro de La Grande Bouffe no pódio de terror por via da comida. O empanturrar como fechar da cortina.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crítica: Holocausto Canibal (1980)

TCN 2014: Nomeações

Ecrã de Haneke