A ventoinha de Laura Palmer


Regressam os andróides de Lanthimos. O fascínio? Ainda por lá anda, longe de cessar. Cenário absurdo e de uma frieza plástica que surpreende por conseguir ainda assim despertar a mínima empatia do espectador com as personagens. Presentes encontram-se laivos do papel do homem no seio familiar, fardo pouco frequentemente usado como motivo narrativo, eximiamente desconstruído há uns anos em Force Majeure. Os quadros de The Killing of a Sacred Deer parecem querer ser o pesadelo de um qualquer agorafóbico, crescente no sufoco de uma câmara que de longe observa. Diminui-os na importância do cosmos. O olhar voyeurístico tido à distância, frio, calculado, impassível ao que se desenrola diante de si.

A contrariar o seu quê de imóvel encontram-se as ventoinhas de tecto, num movimento contínuo que espreita pontualmente pela margem superior do enquadramento. Paira sobre eles algo prestes a despontar, transparecendo na dança das hélices uma certa inquietação. Não aparentando ser objecto aleatório que foge à rigidez da composição, parece funcionar como chama acesa à casa de Laura Palmer, também essa palco a um crescendo de violência de mãos dadas com a perda da inocência. A ventoinha lá se encontra, qual tapete de entrada para o quarto da homecoming queen. A dada altura, Twin Peaks: Fire Walk with Me, alvo de uma admiração crescente a cada novo revisitar e em plena consciência de todos os seus defeitos, sobrepõe Laura e a ventoinha num casamento de planos que lhe são ode à perdição. E é aí que entra em jogo uma das mais criminosas cenas alguma vez eliminadas de um produto final. Sonoplastia digna de registo. O sorriso aberto que cresce na confiança do diabólico, qual resumo da carreira de David Lynch.

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