"Happy End" ou como reciclar toda a obra de Haneke


Happy End é filme-resumo da carreira de Michael Haneke. Ecoa Der siebente Kontinent na sobriedade do suicídio. Usa ainda do seu filme de estreia o dinheiro como temática corrosiva. Traz muito de Benny's Video para a adolescente que observa o mundo através do olho da câmara, numa ânsia do registo que a ambos tolda a vista e os torna mais frios ao valor de uma vida. Ainda que em Happy End não se passe das palavras ao acto, proporciona-se também aqui tempo de antena aos fetiches pouco convencionais que foram pauta a La Pianiste. A vigilância de Caché, exacerbada no pós-11 de Setembro, novamente a (des)construir a linha entre público e privado. Presente ainda Amour e o corpo envelhecido como carcaça que sufoca e limita.
 
Happy End volta a embrenhar-se no confronto da classe média, não houvesse uma recorrente tentativa do austríaco em empreender um estudo sociológico no curso da sua filmografia. Torna-se mais evidente na recta final do filme, num contraste entre classes e etnias que se propõe a deixar o alto gabarito desconfortável, um pouco ao estilo do que Ruben Östlund faria no jantar de gala com o seu The Square - ainda que neste caso a finalidade e o julgamento se revelem outros. A composição continua personagem de distanciamento, capaz de despertar ilações. Na consonância com esse seu estudo mediante o confronto do estratificado, o olhar da câmara observa distante a personagem de Jean-Louis Trintignant a abordar um grupo de negros. Os motivos inaudíveis ao espectador, naquela prática de postura de voyeur tão característica de Haneke, rapidamente despertam a atenção de um outro estranho, causando-lhe choque e estranheza na educação sociocultural que o rege. São em alturas como essa que se beneficia do emprego dos seus frequentes planos gerais, numa tentativa de usar o espectador como participante nesse jogo de aparência e falso julgamento.  

De todos traz. De si como filme autónomo, Happy End pouco ou mesmo nada tem a oferecer de novo. Parco numa existência própria que não use, abuse, recicle os feitos anteriores de Haneke. Na senda de Amour, esse que lhe trouxera contornos revigorantes à carreira, a sua mais recente tentativa fílmica acusa tremendo desgaste no espremer de temáticas.

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