Resolução de ânus novo




Há que entrar em Pieles - não entrem! - de régua na mão para se apreciar toda a mestria masturbatória do plano. Está no centro do enquadramento? Sim, está no centro. Vejam quão direitinho o prato de sopa na mesa filmada de cima para baixo. Mas estão a ver? Se calhar ainda não repararam bem. Vou inserir mais um plano perfeitinho só para ter a certeza de que viram como sei posicionar motivos em cena. Deixem-me contar-vos um segredo: gosto imenso dos filmes do Kubrick e do Wes Anderson. Aposto que não faziam ideia.

Assim é Pieles, postal ao quão plástica se consegue exibir a feitura de um filme. O uso da cor não é menos que um dos piores com que já violei estes meus olhos. Há o cenário rosa. Há o cenário roxo. E depois há ainda o rosa, sem nunca esquecer o roxo. Até mesmo a cor dos pêlos púbicos casam com a mise-en-scène. Nada é deixado ao acaso, tamanha a visão artística que aqui nasce, tropeça e morre. Durante 77 minutos não há descanso algum, mínima brecha à "normalidade" como âncora, seja em forma ou conteúdo. Sim, porque a moldura do filme perde peso quando conta a história de uma mulher com o ânus na cara. Nunca antes na história do cinema se deu um tão literal significado ao pejorativo "cara de cú". Por entre tantos outros deformados que pontuam o protagonismo aqui e ali, num Freaks psicadélico do século XXI, Pieles quer deixar uma mensagem: amem-se tal como são. Bonito.

Eduardo Casanova estreia-se na longa-metragem com intenção de John Waters mas com pretensão de filme maior, sem a honestidade caseira que tão bem caracteriza o "King of Trashy Movies". O seu gemido é quase audível, prazeiroso no quão transgressivo se julga a si mesmo. Pieles é aquele pedaço de merda que se cola à sola do sapato e que mesmo raspado deixa sequelas. Empesta a década como um dos piores filmes.

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